terça-feira

Oh gente da minha terra

Pequenos e grandes portugueses, discute-se por aí. Tenta-se encontrar gente grande num "país de pequeninos" - expressão que qualquer português utiliza como se não fosse nada com ele. Dá-se tal por adquirido, num misto de falta de cultura e de memória. E até de força - para contrariar a pequenez e para aceitar a nossa própria responsabilidade pela mesma.

País de pequeninos? O país é o mesmo, meus senhores. Um rectângulo mais alto que largo que D. Afonso Henriques conquistou estabelecendo aquela que viria a ser a fronteira mais estável da Europa. Um pedaço de terra que Deus pôs na cauda do velho Continente, rodeado por um mar que, aliado a uma indescritível coragem, nos permitiu descobrir o mundo, num tempo em que aos mapas faltavam terras e a imensidão do mar não prometia nada se não doenças, vazio e angústia.

Portugal tornou-se o maior Império, sem contar com mais nada se não com a inteligência e a perseverança humana.

O país é o mesmo, meus senhores. Mudaram-lhe as gentes, lavadas por gerações. E hoje o que temos é uma democracia medíocre em que todos proclamam direitos mas ninguém se lembra de questionar deveres. Nem reciclar o lixo se faz para o bem-comum! "não tenho paciência para essas coisas" é a resposta mais vulgar, como se d’"essas coisas" não dependesse a nossa própria sobrevivência e o mundo que legamos aos nossos filhos - por quem desinfectamos legumes com vinagre e "amoquina"; por quem daríamos a vida.

O mar não é mais quem nos liberta, mas o bode-expiatório que nos aprisiona. Não é força, mas antes sinónimo de dinheiro-em-caixa, mal se consiga atropelar a REN, passar por cima do Plano de Ordenamento da Orla Costeira e dar continuidade à construção desenfreada que pigmenta o país como doença.

É realmente difícil encontrar grandes portugueses de que ainda restem ossadas, num país onde as maiores celebridades são um Zé Castelo Branco, que ainda não definiu o seu próprio sexo, e uma Floribela que ninguém sabe se é mulher ou criança.

No programa onde tudo isto é discutido, atirou-se para o ar Salazar, como quem larga uma anedota. Podemos rir todos! Pelo menos até percebermos que Salazar terá sido, provavelmente, o último português que fez pelo seu país algo digno de nota e que persista.
A democracia é, sem discussão, uma estrondosa conquista. Triste, nesse processo, é apenas a nossa acepção da palavra "liberdade", abusada em proveito próprio, como se todo o proveito apenas próprio não fosse do mais efémero que há.

Abram a janela. É este o país que temos. O país que, livres, pudemos fazer.

O Estado Novo criou, através do Eng. Duarte Pacheco, o primeiro Plano de Urbanização de Lisboa, lançando os maiores equipamentos da nossa capital (Aeroporto, Cidade Universitária, IST, INE, LNEC, Hospital de Santa Maria, Parques de Monsanto e Eduardo VII e avenidas circundantes) a par com as infra-estruturas que ainda hoje nos garantem a saída de Lisboa (Auto-estrada A5, Marginal, 2ª circular e mesmo a 1ª circular que até hoje ninguém conseguiu fechar); fez as avenidas do Areeiro à Gulbenkian, Alameda, Roma, Alvalade, EUA, Infante Santo, Encarnação e Madredeus – os bairros onde apetece viver.
E expropriou, ainda que de forma discutível, os terrenos alfacinhas que actualmente garantem o sustento da CML, através de urbanizações frequentemente de qualidade vacilante e de duvidoso interesse público.

Nós, cidadãos livres que viemos depois, fizemos tudo o que se seguiu.
E ainda temos a cobardia de alterar o nome da ponte que diariamente nos une à margem Sul, retirando o nome de Salazar, para lhe dar o nome do dia em que se derrubou quem a construiu.

A César o que é de César.

E a nós mesmos, toda a responsabilidade por não sermos maiores. Tão grandes como poderíamos ser, se apenas quiséssemos.

quarta-feira

16 de Outubro, 2ª feira

Há apenas um dia, o biquini desbotava-se à luz dos últimos raios de sol realmente quentes. Amarelos, torrados, o sabor a Verão ainda entranhado na areia. A praia cheia. E o mar, esse, era todo ele serenidade e nostalgia.
Há apenas... um dia.

Hoje. Entrei numa daquelas lojas onde tudo provêm da Ásia (e haverão outras?). Sandálias nos pés. Os ombros bronzeados despidos como convêm aos 26 graus.
Procurava uma moldura que me guardasse um abraço de Agosto. Despido, exposto. Salgado.

Encontrei apenas renas. Pais natais de cabelos brancos em canudos, bolas brilhantes cheias de cores e sonhos nenhuns. Árvores de plástico tristes a espreitar caixotes, lacinhos e laçarotes, risos superficiais, daqueles que enchem salas e esvaziam o Natal de qualquer sentido.

Sandálias nos pés. Ainda não chove. E já o Natal nos é impingido. Tão cedo que quando chegar já só o haveremos de querer ver partir. Risquinhos na parede a contar dias. Não para que aconteça, mas para que acabe bem e depressa.

Que droga de sociedade é esta... que nos põe matéria no lugar da alma? Que põe ganância onde não havia?
O Natal é um Deus despido. E um intenso sabor a calma.

Seria...

sexta-feira

há noites que escorregam assim

A noite escorregou como água gelada num dia de verão daqueles quentes quentes. Num trago. Falaram de tudo e de nada, daquilo que traziam na alma, de sonhos, cansaços e de fracassos curados e já revertidos em coisas boas.
Estavam. No coração de Lisboa, em pleno Chiado. E já os varredoures arrastavam as últimas beatas e as ruas eram molhadas por lavadoures.
Os pombos, esses, dormiam.
E a conversa fluía, como se a vida inteira não bastasse.
E a que já passou estivesse toda por contar.

quarta-feira

questão de amor

Começaram a conversar. O que intrigava Tamina eram as perguntas dele. Meu Deus, há tanto tempo que não lhe perguntavam nada! Tinha a impressão de que já havia uma eternidade! Só o marido lhe fazia perguntas ininterruptamente, porque o amor é uma interrogação contínua. Sim, não conheço melhor definição do amor.

Milan Kundera em "O livro do riso e do esquecimento"

sexta-feira

de viagem

Leva-me
Para dentro de ti
Desamarra-me deste porto
em que persisto.

Leva-me a navegar no teu corpo
Entregue à maresia interior dos teus gestos
Quero beijar-te a alma
Abraçar quem és
Envolver-me na tua fé como se de um xaile se tratasse
Pedir ao teu amor que me abrace

Percorrer-te
Ser
Serenidade e atravessar-te como um arrepio quente.
Permanecer assim:
em ti
e em paz.

Leva-me.

Ou manda o tempo dizer-me
quando é que o vento te traz.

quinta-feira

a raíz da alma

Cada pessoa tem a sua alma, que não pode ser confundida com nenhuma outra.
Duas pessoas podem encontrar-se, podem conversar e ser bastante próximas, mas as suas almas são como flores, cada uma com raízes em lugares diferentes - nenhuma delas pode ir ao encontro da outra, caso contrário teria de abandonar as suas raízes e isso é algo que não conseguem fazer.

As flores emitem e trocam o seu aroma e as suas sementes, pois gostariam de ir ao encontro uma da outra, mas para que uma semente chegue ao lugar que lhe é destinado nada a flor pode fazer; responsável por isso é o vento, e esse chega e parte, vai e vem como e para onde ele quiser.

Hermann Hesse, em Knulp

sexta-feira

em branco

Olho para ti, Folha-em-branco,
como para uma tela vazia.

É o nada que me perturba.
A possibilidade de vir a ser,
o poder, o não poder.
A obra de arte que ainda não se fez,
que se tentará
aquela que não se fará
a que eu não hei-de fazer.

O génio que se não solta,
a medo a tapar-me a boca
a incapacidade de dizer o que se quer:
a verdade.
A incerteza, a certeza,

a
perplexidade.

quarta-feira

a minha ausência explica-se

Rainer Maria Rilke disse "escreve apenas quando achares que morres se o não fizeres".
E eu tenho sobrevivido bem.

Rainer Maria Rilke, Cartas a um jovem poeta

quinta-feira

sondagens

As últimas sondagens, anunciadas hoje pela TSF, dão uma vantagem de 7% à campanha do PSD para a autarquia de Lisboa.
Porém, nada está garantido - 30% dos eleitores continuam indecisos entre Guimarães e Carmona.


sexta-feira

Às vezes

E por vezes as noites duram meses
E por vezes os meses oceanos
E por vezes os braços que apertamos
nunca mais são os mesmos. E por vezes

encontramos de nós em poucos meses
o que a noite nos fez em muitos anos.
E por vezes fingimos que lembramos
E por vezes lembramos que por vezes

ao tomarmos o gosto aos oceanos
só o sarro das noites não dos meses
lá no fundo dos corpos encontramos.

E por vezes sorrimos ou choramos
E por vezes por vezes ah por vezes
Num segundo se evolam tantos anos.

David Mourão-Ferreira

quinta-feira

quente e frio

- Ando aqui, entre o pensamento e o desejo, a não querer e a querer que venhas ver-me.
Eles não me dão tempo para gostar de ti...

António Alçada Baptista, em O Riso de Deus.

silêncio

As minhas tintas desapareceram TODAS.
Sinto-me como se me tivessem enfiado um trapo na boca.

segunda-feira

eu e você

Então "eu era o rei
era um bedéu e era também juiz.
E pela minha lei
a gente era obrigado a ser feliz.

E você
era a princesa que eu fiz coroar
e era tão linda de se admirar
que andava nua pelo meu país...!

(...)

Agora era fatal
que o faz-de-conta terminasse assim.
P'ra lá desse quintal
era uma noite que não tem mais fim...

Pois você
sumiu no mundo sem me avisar...
e agora eu era um louco a perguntar
- o que é que a vida vai fazer de mim?"

Extracto de João e Maria, de Chico Buarque

domingo

volátil

Odeio a palavra volátil.
Odeio o que é liquido, o que se escapa entre os dedos, o que escorrega no tempo,
o que se desfaz com o vento.
O que explode.
Detesto tudo aquilo que a volatilidade... pode.
O poder de trazer e de levar.
O encanto que é frágil.
A paixão ágil que se deslumbra sem base.
Tudo aquilo que é fantástico, mas...
apenas numa determinada fase!

Detesto o que adora e depois fere.
A intolerância do que não é amor mas tão só superfície.
A planície que parece sólida e que se racha ao primeiro abano de zero ponto um
da Escala de Richter

segunda-feira

One Planet Living

If everyone in the world lived as we do in Europe we would need three planets to support us. Therefore we need to reduce our impact - our ecological footprint – by two thirds to a sustainable and globally equitable level.
Different countries however are consuming at different levels. In the USA, five planets would be needed, whilst in China although now living within the one planet level, the current rapid development will lead to a massively increased impact.



The challenge that faces us all is: how can people everywhere enjoy a high quality of life, within the carrying capacity of one planet? One Planet Living is a partnership between BioRegional and WWF which will show how this is possible by establishing five One Planet Living Communities in Europe, USA, China, South Africa and Australia. Each community will be home to more than 5,000 people and include schools, factories, health and leisure facilities, transport and food links.

One Planet Living Communities will adopt the following guiding principles:
1. Zero carbon
2. Zero waste
3. Sustainable transport
4. Sustainable materials
5. Local and sustainable food
6. Sustainable water
7. Natural habitats and wildlife
8. Culture and heritage
9. Equity and fair trade
10. Health and happiness

previsão de um planeta

By the end of this century, our planet may look very different from how it does today. Many small island nations might no longer exist, inundation of coastal areas could lead to the displacement of hundreds of millions of people, and former agricultural lands could become unable to support crops.
While all countries are vulnerable to the consequences, developing countries are especially at risk. Their economies will suffer most from the heightened frequency of extreme droughts, floods and storms associated with climate change. There is a real risk that climate change could undermine human development.

We must not let that happen.


Kofi A. Annan,
UN Secretary-General

quarta-feira

a insustentável consequência da inconsequência

Saiu do edifício, como quem entra numa nuvem quente. Lá fora o ar era seco, de um calor áspero. Daqueles que não sabem bem nem escorregam.
Escorregava-lhe a pele, logo depois.
O preto do alcatrão a sugar todos os raios, o betão quente a reflecti-los. No cruzamento das ruas todos os tubos de escape aumentavam 10 graus à temperatura da cidade; os motores dos ares condicionados, voltados para o passeio, abafavam outros 10.
Porém, foi só quando olhou os jacarandás da avenida - que deviam estar repletos de florinhas roxas por esta altura - e os viu definhados à força da seca, que sentiu.
Que a seca é real. Que as alterações climáticas também. Que a cidade é uma ilha de calor cujos solos tornámos impermeáveis até Mafra.

Que o mundo padece. E se acinzenta.

No autocarro, um bebé ria tranquilo.
Sorriu-lhe. Mas o seu sorriso era triste,por dentro era agonia.
.

sexta-feira

tu em todas

Cruzo ruas desertas
Cheias de ninguém.
Olho as janelas vazias onde te debruças
De cada porta aberta
Vejo surgir o teu vulto, em ziguezague,
A dirigir-se a mim
Contra a luz do fim da tarde.

Esbarro com a tua ausência em cada esquina
Encontro o teu sorriso em cada cara de menina.
Todos os sons são o teu nome
Todos os cheiros me trazem o teu corpo.
Navego em solidão
E a solidão, que és tu, chama-me
- louco!
.

quinta-feira

a justa medida

Temos que
dar sempre passos
maiores que os passos que já demos.
Mas nunca passos maiores que as pernas!
Se não,
em vez de vencer medos
Ganhamos medos,
apenas.
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quarta-feira

se...

Se tivesse ido, se tivesse ficado, se tivesse tentado, se tivesse esperado.
Se ao menos gostasses, se eu te quisesse
Se adormecesses, se eu desejasse, se me aprouvesse.

Se não tivesse chovido,
Se o autocarro não tivesse seguido, se eu tivesse entrado.
Se tu tivesses saído, se eu te encontrasse.
Se cá não morasse.
Se tivesse nascido noutro qualquer lugar.
Se não tivesse caído. Rasgado o vestido. Perdido a ilusão.
Se em vez de mulher fosse peixe e vivesse no mar.

Se ao menos tivesse aberto a porta.
Se tivesse dito... que não!
Se.

Que me importa?
Se todas os se’s são realidades que nunca o foram.
Nem serão.
.

terça-feira

O lado bom... da fúria!

Cada história tem dois lados. Três ou quatro!
Não há ferida que não sare. Não há traição maior que não possa ser perdoada.
Não há reviravolta da vida que nos possa deixar... sem nada?!

Há sempre uma estrada.
O lado mau da fúria? É que nos cega.
E nos entrega, sempre, a um juízo errado.
O lado bom da fúria? É que nos liberta e um dia acaba.



Para nos deixar ver, depois que as nuvens passem, que por trás delas o céu
nunca deixou de ser azul.
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quarta-feira

nódoas difíceis

Não que eu tenha alguuuuuuuuma coisa contra o Carrilho...
mas já repararam que o logotipo de campanha do gajo é igualzinho ao símbolo do Skip Nódoas Difíceis?

Coincidência...?
.

sexta-feira

por uma Lisboa do avesso

Que os cartazes de Manuel Mª Carrilho nos causam algum desconforto visual - que vai além de ter a tromba do homem em tamanho XL escarrapachada por toda a LX e um logotipo de campanha que é um susto - é evidente.
Menos evidente, porém, é o motivo de tal estranheza, nem que seja porque não passa pela cabeça de nenhum alfacinha que um candidato à nossa autarquia se lembre de virar Liboa do avesso em ambas as fotografias de cartaz...!



Edson Athayde, o publicitário responsável pela campanha, justificou-se dizendo que "assim ficava melhor", acrescentando que havia coisas mais importantes do que uma inversão de imagem.
No cartaz do Parque Eduardo VII, o candidato surge à esquerda, enquanto naquele em que se estampa em cima do Castelo, a sua figura nos aparece à direita. Não bastaria ser ao contrário?!

Se existem coisas mais importantes, não sei, mas parece-me que um canditado que põe Lisboa de pernas para o ar com tal complacência, não augura nem amor à cidade, nem nada de bom.

quinta-feira

A Queda

Entrar numa sala de cinema para ver Hitler em Queda é semelhante a invadir um manicómio liderado por Heil Donald Duck.

Que os nacional-socialistas eram doidos, já sabíamos. Que Hitler era histérico e rigorosamente igual ao pato Donald a falar, é que ainda não.



Depois de termos o previlégio de viver 2horas no lado negro da guerra (se é que existe um lado mais claro) sabe bem saber que entre 1997 e 2003 toda a geração que dirigiu o nazismo se extinguiu. O mundo nunca se libertará do peso de 50 milhões de mortes. Mas, pelo menos, acaba de se libertar integralmente daqueles que as motivaram.
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quarta-feira

sport style

No outro dia
enquanto corria o meu habitual percurso Docas-Bélém-Docas
uma dondoca, meio gordalhufa e completamente cota
ultrapassou-me de bicicleta.

Vestia, esganando a celulite,
uns calções de ciclista que, em letras garrafais (acessíveis a qualquer vesgo)
e em ambas as pernas
tinham escrito a palavra KONA.

Sou eu que ando a correr no ginásio das prostitutas menos endinheiradas
ou há gente que não tem mesmo a menor noção do ridículo?
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terça-feira

de alma lavada

ontem o meu bilhete de identidade foi parar à maquina de lavar roupa.
Hoje... sinto-me outra!
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temos um novo papa

Só ainda não se sabe... quem é.

Não é que eu alguma vez tenha ligado muito ao antigo,
mas é a única figura permanente desde que nascemos, não é?

Foi-se
a última réstea de ilusão de que o tempo não passa
e de que os nossos pilares são eternos.
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segunda-feira

fado?

a fatalidade triunfa logo que se crê nela.



Texto de Simone de Beauvoir;
fotografias de Helena Almeida, Colecção Berardo,
em exposição no Museu de Arte Moderna de Sintra
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quarta-feira

pergunto...?

Na 6ª feira consegui uma proeza brilhante: fui à missa-de-corpo-presente de uma pessoa que morreu para mais de 15 anos...! Mais... consegui arrastar comigo a Y, que me dizia "mas Rita, esse avô dela já morreu!". E eu insistia. Que não, que estava vivo, que transpirava saúde e por isso mesmo estava pouco em casa. Conclusão, não só fui ao funeral errado como ainda levei companhia!

Até aqui, trágico... mas nefasto mesmo foi chegar à igreja e não perceber o engano. Foi estranhar a madalena, neta do pseudo-falecido, não estar lá e não somar 2+2; falar com um abraço solidário ao pai dela, que só lá estava para entregar, ele próprio, um abraço solidário... como se fosse ele o filho do defunto; fazer o mesmo com a mãe dela. E nem sequer cumprimentar com um olázinho uma família inteira deveras lacrimejante... de fio a pavio íntima lá de casa. Tudo bem, se não tivesse sido vista...
mas pior ainda é que fui.

Até aqui descansadita, com a noção do dever cumprido! eis que me liga a madalena, cujo avô paterno morreu nem ela sabe quando, mas que, felizmente tem outro vivinho da silva, esfregada em lágrimas, a perguntar que mensagem era aquela... sim, aquela que eu tinha mandado, a dizer minha querida, soube do teu avô, estranhei não te ver na missa, mas aqui fica um beijinho grande etc e tal. Meu... e da Y.

Foi preciso isto para se fazer luz na minha cabecinha anestesiada e perceber que não... não era o avô dela que jazia no caixão. Mas, como é óbvio, parti-me a rir com o engano... eu e a Y, agarradas ao corrimão da garagem e à barriga; a madalena a chorar, fazendo jus ao seu nome; e nós sem repararmos que ela ainda não tinha percebido o engano... Até que recuperámos o fôlego.

Reposta a ordem, ainda em fungadelas, explicou-nos que tinha ligado à outra avó, a perguntar se o marido tinha morrido, que é uma pergunta sempre simpática de se ouvir...! felizmente que se lhe entremelou a voz, não proferiu palavra e desligou o telefone na cara da senhora.... a quem certamente teria provocado um ataque cardíaco.

E eu pergunto: será que estas coisas também acontecem às pessoas normais?
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terça-feira

vida?

por um mero acaso, dei por mim no Word a procurar sinónimos para a palavra VIDA.
Queria-a substituir num texto, a coisa não me estava a soar bem...

Encontrei:

- actividade,
- emprego,
- carreira,
- profissão

e só bem no fim, depois de mais uns quantos vocábulos que nada têm a ver com a palavra em causa, vislumbrei:

- existência

... coisa que ainda assim não deixa de ser francamente redutora.

Quando um país tem como ícone cultural o FADO e traduz desta forma a palavra VIDA,
é natural que consuma mais anti-depressivos do que qualquer outro Estado da Europa.
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sexta-feira

apetece-me!

Apetece-me mentir-vos descaradamente.
Por isso, se de repente, eu for riso, angústia, paixão, lamúria, homem, mulher, o que me aprouver... não liguem. E não cusquem.
Faz parte do meu show... meu amor!*

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*Extracto de uma letra de Cazuza.
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quarta-feira

filhos de um deus maior

Oh, meu deus, meu deus! Sim, meu deus... obrigado! Eu te agradeço por me teres proporcionado esta profissão tãaaaaaaaaaaaao liiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiinda!
Por poder gozar dia após dia destes espectáculos!
Sim, vamos todos pedir a deus que nos ilumine, que nos ajude a marcar um golaço. Ajuda-nos, meu deus, a pôr as bolas no sítio certo.
Sim, vai, vai, vai Costa, vai....!
Siiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiiimmmmmmmmmmmmmmmmmmm....!


Ao contrário do que tudo leva a crer, o discurso acima transcrito não se trata do (falso) orgasmo de uma prostituta, nem tão pouco da homília de um padre mais modernaço. Trata-se tão somente do relato do jogo de ontem, Porto - Inter de Milão, na Tsf...
Um tantinho caricato... não?

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terça-feira

acho que

preocuparmo-nos em sermos felizes no dia seguinte
é a única maneira de sermos felizes a vida inteira.

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sexta-feira

a minha sina

Declarou-se vidente
Embora fosse evidente que não era coisa alguma
Pediu-me a mão
(que eu não dei)
e já me afastando disse do outro lado da rua
que vida linda, linda, linda
que vai ser a sua, menina!

Manifesto
que só queria sacar os trocos
de uma qualquer pagã.
Mas eu estava já sorridente
(contente com minha sina!)
Quando dobrei a esquina
Dessa manhã.
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quinta-feira

paleta

Acordei de um só trago.
O céu, mais verde que o habitual, entrava pelas frinchas da janela...
A manhã, ao acordar, tinha-se esquecido de apagar umas quantas estrelas que, entretanto, passeavam entre as nuvens, desfiadas. Era ainda cedo, apesar da minha rara espertina, e, talvez por isso, os pássaros todos do bairro estivessem ainda embalados em silêncio. Só um pio ou outro, espaçado e distante, garantia que não era tempo de férias nem de emigração.

Um dia, a Teresa perguntou-me:
- porque é que alguns passarinhos escolhem viver em Lisboa?

Na altura fiquei sem jeito e até pensei que, de facto, nada daquilo que a cidade tem de bom (teatros, cinemas, exposições e uns quantos copos entre as vielas do bairro!) lhes era acessível nem importante.

Mas hoje percebi que há manhãs verdes que só Lisboa tem; que as ruas se vestem de cores folclóricas que não existem em mais parte alguma; que as folhas das árvores, quando caem, deixam os corredores da cidade pintados de amarelo;
e que a Água do Rio e o Mar são dois amantes azuis e eternos, daqueles que dá gosto ver.

Se acaso não houver nenhuma outra razão para um passarinho viver em Lisboa, todo esse colorido me parece, desde já, ser justa causa.
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magia

Acreditas em fadas?

Ela ri-se. Não sabe se a pergunta a atordoa ou comove.
Enternece-se, diz que nunca pensou nisso. Mas de repente, mesmo sem querer, imagina um cem número de luzinhas a pegar nos seus braços e nas suas pernas e começa a dançar.

Apesar de não as ver, já não dúvida. Ri-se de novo, mas desta vez com os olhos.
E responde-lhe que sim, que nada daquilo que importa se vê
e daí toda a magia da palavra

fé.
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terça-feira

na engrenagem dos dias

Todas as madrugadas o despertador toca, ainda é noite, o corpo levanta-se, balança, cambaleia um pouco só. Os pés descalços na pedra fria da casa de banho, o banho, primeiro escaldante, depois gelado, num desejo de choque térmico que o acorde.
A barba, os dentes, o cabelo ralo a escorregar por entre o pente, tudo sempre por esta ordem e nunca outra.
O pequeno almoço, um primeiro gole de leite na boca, que invariavelmente lhe sabe mal. Vai para o quarto, veste a roupa, sem imaginação nem qualquer rasgo. Ontem, como hoje, amanhã será igual. Todas as manhãs pega no carro, de encontro à cidade, a tarde semelhante, apenas o sentido da marcha é inverso e o corpo mais cansado. O dia não lhe pertence.

Apenas as noites são suas, passeia o cão pelas ruas, sem as destinguir. Só muito de vez em quando se lembra e pergunta aonde vai. Nesses dias, recorda uma frase que em tempos ouviu, na rotina da missa de domingo, num domingo um pouco diferente em que ir à missa lhe soube bem

- às vezes, embrulhamo-nos de tal maneira nos dias,
que em vez de termos uma vida, é a vida que nos tem.

quarta-feira

Sul

Segue, rumo ao Sul. Há um lençol cor-de-rosa-céu a afagar-lhe o carro, em cada curva do caminho. As árvores da estrada, de um e de outro lado, dão as mãos, em arco. E ela passa, o carro passa, ela e o carro por baixo dos arcos feitos de mãos-dadas de árvores.

Sente: há, na Costa Viventina, uma paz líquida que a invade. Há uma bailarina que se lhe infiltra na alma e dança só para ela. Há borboletas que lhe dizem em susurro bem vinda a casa.
E há um passarinho pequeno, que a acorda em cada manhã e a leva à boleia na asa, para ver as praias e o mar.

Não duvida. Nasce mesmo uma bola de cristal dentro dela quando chega àquele lugar. Com cristais azuis, a flutuar-lhe pelo corpo. Sabe disso só porque sim.
Porque fica azul sempre que chega ali.

sexta-feira

o debate

.

Pior que assistir a José Sócrates engasgar-se a cada duas frases do seu discurso,
foi ver Pedro Santana Lopes num atípico ataque de dislexia,
trocar as vogais do seu sermão:

- meus senhores, eu tenho 30 anos de boatos em cima!

quando queria, naturalmente, dizer boites.

quarta-feira

anti-campanha

Não sou de extremos.
Mas convenhamos que em Portugal, o centro político se apresenta extremamente mau.

Por entre bate-bocas da mais baixa índole tem sobrado apenas espaço para discutir pormenores que, na verdade, não importam a ninguém. Perante a actual situação que o país atravessa, discutir o casamento entre homossexuais ou a liberalização do aborto é tão absurdo quanto mandar uma bomba atómica para matar um coelho. E o pouco que se tem dito em relação à conjuntura económica e à situação social dos portugueses denota uma profunda falta de estratégia e mesmo ignorância.

Paulo Portas disse hoje, em entrevista à TSF, que os votos merecem-se.

É certamente com esta frase a ecoar nos ouvidos que irei votar.

terça-feira

metrópole

A limitação espacial apresentaria, por si só, uma ocasião muitíssimo propícia à coesão da comunidade, já que a limitação de espaço parece literalmente atirar as pessoas umas contra as outras.

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Mas não.
Acontece exactamente o contrário: em nenhuma outra situação os indivíduos se encontram tão próximos exteriormente e tão afastados interiormente.

Com a proximidade forçada, cansa-se e esmorece também o interesse interior relativamente aos seus próprios semelhantes.

Teorias sobre a cidade, texto de Marcella delle Donne (ligeiramente deturpado)

segunda-feira

Baraka

Baraka é, em tradução linear, um sopro, suspiro.

Baraka é, também, um filme, documentário lindíssimo, de uma serenidade avassaladora,
de uma beleza cortante.
Baraka é, na verdade, não um sopro, mas um grito. Dado quase em silêncio, sem vozes nem legendas - apenas imagens embrulhadas numa banda sonora cirúrgica.

Baraka é, em última análise, o berro sufocado de um planeta, onde a perfeita simbiose entre o homem e a Terra contrasta com a brutalidade da (sobre)vivência na metrópole actual.

Um filme feito de analogias de incomparável perspicácia. Filmado no mundo.
E atirado ao mundo, como uma pedrada num charco.



24 países, vistos em 3 meses, montados num dvd imperdível (mas difícil de encontrar).

infinito

Hoje, o mar está particularmente infinito.

Há uma linha concreta que separa a água e o céu, em dois tons de azul profundo.
O mar plano e tão sereno que julgo que se quiser andar sobre ele nem me molho. Poderei pousar os passos, primeiro um, depois outro, direito, esquerdo, direito, esquerdo, dir

Até alcançar a harmonia, o lugar perfeito, onde o homem e a natureza não se agridem mutuamente. O lugar em que a paz vive como rainha a flutuar num reino só seu.

Hoje, o céu está particularmente infinito.

terça-feira

fui!

Cansada da areia, das coisas terrenas, de um chão seguro, de um contexto duro, da brusquidão dos passos em corrida, de me assentar nos pés...

Ganhei braços para remar, voar ainda não... quem sabe um dia?

A água a vestir-me a pele, e uma prancha a sustentar-me a gente.
O corpo gelado a sentir-se estranhamente bem...
A espuma na cara, o mar escorregadio até à boca, a saber a sal.
E o sol a brilhar nele, em sorrisos de todas as cores.

Diziam-me a toda hora o quanto era bom. Quis entender. E agora
sei.

Ontem fui. E amanhã...

vou!

sexta-feira

rolling stones

Apercebi-me que na vida, o melhor mesmo é não stressar nem dar demasiada
importância às coisas. Tudo se resolve. O Nuno diz que a minha
frase preferida é

- tudo é relativo.

Nunca tinha reparado, mas digo isso muitas vezes.

E é verdade... aquilo que de vez em quando nos parece um
precipício acaba normalmente por se revelar apenas uma pedra no
caminho...

... tantas vezes preciosa.

quinta-feira

a representação do Eu

A obra de Goffman, com o título The Presentation of Self on Everyday Life
(A Representação do Eu) proporciona-nos observações apuradas e em pormenor acerca das relações entre a fachada que as pessoas apresentam ao mundo e o Eu que essa fachada serve para dissimular.
O emprego da palavra "fachada" é, em si próprio, revelador: assinala o papel desempenhado pelos elementos arquitectónicos que fornecem as barreiras atrás das quais as pessoas periodicamente se retiram.

Manter uma fachada pode exigir um enorme dispêndio nervoso. A arquitectura reúne certas condições que permitem aliviar desse fardo os seres humanos. Pode igualmente fornecer-lhes o refúgio onde "se abandonem a si próprios" e sejam simplesmente o que sentem ser.

Edward T. Hall
em A Dimensão Oculta.

terça-feira

Febril

Arde-me a pele. E o corpo parece-me pisado por mil cavalos em marcha apressada, galope sobre os altos e baixos que sou.

Gripe de Janeiro, o corpo dormente e a imaginação sem rédea. Febril. Arde-me a pele. E talvez por isso te imagine aqui e me pareças tão real.
O sol atravessa o estore como água por um passador e espalha-se pelas paredes do quarto em infinitas luzinhas. O brilho dos teus olhos atirado contra a cor sombra que me envolve, a trazer-me o teu sorriso. Sinto-te a dormir no abraço que o meu corpo te dá. Os sorrisos que hão-de vir, os pés descalços a percorrer a areia de todas as praias do mundo, as ruas do Chiado galgadas em dias de inverno.

Arde-me a pele. E no delírio do ardor voo contigo, contra um céu azul e imenso, como um sonho suspenso, e acordo a rir.

quarta-feira

acreditas?

Acreditas em amor à primeira vista?
- já nem acredito noutra coisa
respondeu-me.

Sorria, num sorriso sincero. Mas por fora adivinhava-se-lhe um coração pequenino, como se todo o corpo fosse um invólucro transparente que nada escondesse.
- acho que as pessoas são feixes de luz (ou de escuridão) vivendo em diferentes comprimentos de onda e, por isso mesmo, raro se encontram
acrescentou ainda.

Como se fôssemos todos paralelos.
Riscas a desenhar um espaço sem cruzamentos (leia-se entregas).
Linhas às curvas. Curvas aos "S"s. Demasiados "ses".

- acredito apenas em amores à primeira vista, porque me parece que é a única vista que existe. Tudo o resto são olhares que nos passam através, sem se deter.


penso

Penso: talvez o céu seja um mar grande de água doce e talvez a gente não ande debaixo do céu mas em cima dele; talvez a gente veja as coisas ao contrário e a terra seja como um céu e quando a gente morre, quando a gente morre, talvez a gente caia e se afunde no céu.



José Luís Peixoto
em Nenhum Olhar

sexta-feira

venha o diabo e escolha

"Os de esquerda só são capazes de fazer dois tipos de orçamento:
os impossíveis e os errados"

Bagão Félix, hoje, 07 de Janeiro, em entrevista à Sic.

wash-machine

Hoje, dia 31 de Dezembro, foram lá a casa buscar a máquina de lavar louça
para arranjar.
Quando perguntei quando é que a traziam de volta, responderam

- levamo-la este ano e trazêmo-la no ano que vem.

Fiquei incomensuravelmente mais esclarecida.

terça-feira

Querido doismiliquatro

É inevitável esta nostalgia da despedida, ainda que eu saiba que entre o último dia de Dezembro e o primeiro de Janeiro, é apenas mais um pedacinho de tempo que passa e no fundo, nada muda. Ano novo, vida nova, dizem. Há a sensação de um baptismo que nos lava a alma e nos dá a oportunidade de começar tudo do zero. Mas é apenas uma ilusão. Os pecados estão lá todos, como nódoas numa camisola, os erros roem-nos à mesma a alma como traças... as alegrias e as lições, felizmente, também permanecem.

Não se vão embora as dores nem as cores. Ficam as amigas, tal como as feridas.
Subsistem as descobertas.
Cada ano que passa é uma manta de retalhos que fica. De sedas e serapilheiras cerzidas, debruadas com a cor que conseguirmos retirar em conclusão.

Poderia dizer que vou ter saudades tuas (ficar-me-ía bem)... Poderia, com justiça, dizer que foste lixado em certos dias ( e eu que contava tanto contigo)... Poderia. Posso. Dizer que foste cheio. Enorme. Gigante! E que por tudo isso, de propósito ou sem querer, às vezes à bruta, em luta... e outras ao colo e em braços, me fizeste crescer.
Gostei de ti. Gosto ainda. Faltam 3 dias para morreres. Dizem que as pessoas só morrem quando deixamos de nos lembrar delas. Suponho que com os anos se passe o mesmo.
Não me morrerás nunca, então.

E sim, vou ter saudades tuas, era isso que tinha para te dizer.

segunda-feira

então e o natal... passou-se?

perguntar a alguém se o natal se passou bem é tão descabido quanto perguntar a uma mãe que acabou de dar à luz se o parto foi bom, ignorando por completo se a criança nasceu viva.
.
É que o natal não é um alvoroço que passa no dia 25.
É, em vez disso, uma viagem que começa.

quinta-feira

natal

Bom seria, que neste dia, não se trocasse nada senão abraços e sorrisos.
Sonhos, filhoses... (só para temperar a partilha). Um perú recheado, talvez.
Velas... estrelas! nada mais.
Que não se acumulassem na estante quarenta mil postais, assinados por ninguém, desejando boas festas em 4 línguas diferentes. Bom seria.
Se se gastasse menos papel (de um e de outro...). Menos laçarotes e cores, amizades de cordel, menos tempo em correria.
Se se fizesse menos lixo. Se inventasse menos luxo.
Se dedicasse mais tempo
ao outro.

Se ao menos o Natal, não se tivesse tornado no dia mais pagão do ano inteiro...
(dá-se, em vez da alma, o dinheiro)

Bom seria, se em vez de um top, embrulhado em papel de seda pardo
(com um grande laço)
viesses tu
num abraço.

não perca tempo

Não perca tempo julgando as pessoas
para que não falte tempo para as amar.

Madre Teresa de Calcutá

quarta-feira

Querido Salvador

Falámos meio em correria, no outro dia. Pouco mais do que um olá seguido de um adeus, que tal o fim-de-semana, bom... e o teu? e o casamento, foi giro?
Foi lindo, respondi-te. Riste-te. Como se eu tivesse largado para o ar a primeira banalidade que me veio à cabeça (é suposto falar destes festivais como epopeias brilhantes, quanto mais não seja pelo dinheiro que custam).
Mas não, não foi uma laracha atirada solta. E isso eu não tive tempo de te explicar. Já tinha a viola na mão e tinha mesmo que ir a correr para o ensaio, onde toco mal enquanto finjo que sei cantar.
Porquê? Terias perguntado, se ao menos te tivesse dado tempo. Mas isso é coisa que tenho sempre dificuldade em dar sem razão de relevo... faz-me sempre falta, nem que seja para o entregar noutra qualquer porta mais carente.
Porquê? Porque nunca vi um padre casar ninguém com tão desmesurado gozo. Nem uma noiva responder estou sim com tamanha convicção, perante a pergunta estás decidida...? Até nos rimos! Como rimos quando o pároco fez notar que ambos os noivos se tinham enganado, trocando a promessa de fidelidade por felicidade. E acrescentou que tinham toda a razão, já que a felicidade continha a fidelidade e muitas coisas mais. Como o diálogo, por exemplo. Levantou-se no fim o padrinho de baptismo do noivo, em tom de brincadeira se intitulando de "grande chefe", mas dando um conselho sério. Todos os dias, antes de adormecer, conversem. Conversem sempre! E não se esqueçam nunca de fazer dessa uma conversa a três. Com cristo. Ou com amor, que afinal é a mesma coisa, para quem não acredite no primeiro (e isto já sou eu que acrescento). Estava casado há quarenta anos. E disse que era muito muito bom, pintando as duas últimas palavras com aquela entrega que vem de dentro.
Porquê? Porque o coro era constituído por apenas duas vozes de fado, a embalar o destino de forma soberba e sorridente. Confiante.

Há sorrisos divertidos. E há sorrisos felizes. Já reparaste... como são diferentes?
O Convento de São Paulo estava cheio dos segundos, por uma razão apenas:
Respirava-se, naquela igreja, a sensação de um amor incondicional.
E isso é coisa rara nestes dias.


segunda-feira

Em francês

O mal do cinema francês é que nunca sabemos o que nos espera.
Um filme simplesmente soberbo, que arrepia de tão bonito:

.
Les Coristes (Quarteto)

ou uma chatice de todo o tamanho, sórdida e doentia, com raríssimos diálogos que (felizmente) não acontecem em parte nenhuma do globo. Um filme destinado a uma pequeníssima minoria (que finge que aprecia?):


Histoire de Marie et Julien (Nimas)

quinta-feira

You wake up... what?

Numa semana com o insistente sabor de um mau momento,
um dia em tons de cinzento e um humor tão pardacento como uma alcatifa qualquer...
Nesse dia mesmo. Deu por si a pensar naquele porta-chaves de chapa que se vendia nas Amoreiras, quando o centro comercial abriu e a abertura de um shopping ainda era coisa original: You wake up the devil in me.
Mas ao contrário.

É que encontrou-o. E, só por isso, reencontrou-se.
Há pessoas que nos apagam. E outras, que pelo simples facto de existir, nos acendem.
E nos devolvem a paz.
Pensou.

Não o viu mais.
Mas o tom de cinzento
passou.

sexta-feira

Analogia

"Dos dois, deuses e mortais, quem vive mais urgente, mais intensamente, somos nós.
É por isso que não conseguem esquecer-nos, não conseguem passar sem nós,
que nos observam e vigiam, incessantemente. (...)
Especializaram-se no género humano só porque temos algo que lhes falta a eles;
estudam-nos porque nos invejam."

J.M.Coetzee em Elizabeth Costello

quinta-feira

a insustentável complexidade de...ser

Ontem, em mais uma das nossas conversas raramente banais, disseste-me que
cada um é a soma daquilo que é
com aquilo que projecta ser.

Que eu nunca conseguirei ver aquilo que projecto
tal como os outros nunca conseguirão ver aquilo que sou.

Algures, entre a essência e a imagem...
estou.



terça-feira

I ask

What do you know about love,
I ask.
What have you loved, what have you lived?

Can’t find you
Behind your eyes.
Bem te procuro...

Eu já não te encontro mais.

Although they’re green
They’re cold and blue.
No hope.
I look, but I can’t see.

Olho para o teus olhos
E já não te encontro a ti.



What have you lived... What have you loved?
Quem te fechou?


quarta-feira

há dias assim

Há dias em que acho que não fui feita com as peças todas.
Dias, como hoje, em que tenho todos os motivos para sentir ódio e não sinto nada.
Pena? Paz.
Alguma decepção, quando muito.

Nestes momentos penso que Deus tem mesmo que existir. Não pode haver outra explicação para a serenidade que me habita.

alguém disse:

"A vida não é medida pelo número de vezes que se respira
mas pelos momentos em que se perde o fôlego..."

Zzzzzzz......

Todos os dias acordo com a Tsf:
são 8 horas e meia. 7 e meia nos Açores.

A partir de amanhã começo a guiar-me pelo horário matinal micaelense.
Tá decidido.

terça-feira

Outubro

Todos os anos é isto:
o Verão despede-se como uma fábula triste. E, de manto cinzento-chuva,
encolhe os ombros num gesto submisso e abandona a sala.

.

quinta-feira

Canção Grata de Carlos Queirós

Por tudo o que me deste:
- Inquietação, cuidado;
(um pouco de ternura? É certo, mas tão pouco!)
Noites de insónia, pelas ruas, como um louco...
- Obrigado, obrigado!

Por aquela tão doce e tão breve ilusão
(embora nunca mais, depois que a vi desfeita,
eu volte a ser quem fui), sem ironia: aceita
A minha gratidão!

Que bem me faz, agora, o mal que me fizeste!
- Mais forte, mais sereno, e livre, e descuidado...
Sem ironia, amor: Obrigado, obrigado
Por tudo o que me deste!

A vida é um milagre

de Emir Kusturica, o mesmo realizador de Gato Preto Gato Branco.

Ontem perdi 46 minutos de vida.
Ao minuto 47, abandonei a sala de cinema.
milagre? foi ter aguentado tanto tempo.



sexta-feira

Nathalie

Um filme que prova que a imaginação
pode ser tão ou mais erótica do que a imagem.



O diálogo, a fidelidade, a confiança, a rotina...
e a certeza, tranquilizadora, de que a verdade
(cedo ou tarde)
vem ao de cima.

quarta-feira

O Evangelho Segundo Jesus Cristo

Uma peça de teatro em que Jesus se faz homem.
Com desilusões e conquistas.
Com medos e dúvidas, iguais aos nossos.
Um caminho que não escolhe, numa vida em que não entende quem é.
É... escolhido.

A fidelidade ao texto original é absoluta e a passagem para o teatro, brilhante.
Cenários, luzes, efeitos, actores.
E um final que fica a ecoar no ouvido por muito tempo... o pano cai e permanece, a assistência sai e não esquece, já descemos o Chiado e essa última agonia ainda ecoa entre as paredes interiores do nosso corpo.



Curioso... pensar que têm de ser os brasileiros a trazer ao palco
O Evangelho Segundo... Saramago.
Mas, justiça seja feita, ali, ninguém os supera.

quinta-feira

shiu...

Passei a semana a ouvir gente que não ouve ninguém. Gritam como se isso lhes desse uma qualquer autoridade ou solidez na postura. Quando nada mostra mais insegurança e falta de estrutura do que um berro. Piora um pouco quando é dado sem nexo e as palavras que nele cabem não fazem sentido nenhum nem contém argumentos pertinentes.

Apetece-me desligar o botão. Calem-se. Ir-me embora. Almoçar sozinha numa qualquer esquina. Quero paz.
Será assim tão difícil ter boa vontade, ouvir e querer perceber?
Discordar, se assim tiver que ser. Mas partir do principio de que aqueles que nos rodeiam têm opiniões tão válidas quanto a nossa, ainda que diferentes.

Bem bom que volto para os Açores não tarda.

serviço público

Com as extraordinárias explicações da Women on Waves acerca de "como fazer um aborto em casa com comprimidos para o reumatismo", abortar passa a ser tão fácil como combater a prisão de ventre.

Que haja uma mulher que não tem noção das consequências daquilo que diz, ainda entendo... Que exista uma televisão irresponsável que divulgue, repetidamente e em horário nobre, as suas explicações, é que me choca.

segunda-feira

Eu... quem?

Estão espalhadas por toda a Lisboa fitas-cola a dizer
EU FIZ UM ABORTO (a pretexto de um certo barco, presumo).
Será que fazer um aborto deixou de ser uma vergonha que se esconde
para se tornar num motivo de orgulho que se apregoa?

É que entre a coragem de assumir, dando a cara,
e a mediocridade de publicitar, sobre anonimato, vai uma diferença abismal.

Abortar poderá ser, para quem nisso acredita e em determinadas circunstâncias da vida, um mal menor.
Mas não poderá nunca ser algo que se apregoa de peito inchado, depois de vazada a barriga de uma qualquer asneira. Ou de uma vida.

Festas do Povo

Ontem, numa loja de flores, na festa das flores, Campo Maior:

Rosa - Oh Florinda, já me viste este cacto?
Florinda - Que esbelto!

Para além das duas formosas papoilas, estava lá o poder do mundo. Mais uma festa popular que se estraga, trocando-se o encanto suave do alentejo por um fenómeno de massas, de lixo, publicidade, barulho e artesanato made in Taiwan.


quinta-feira

O Código da Vinci desmistificado

Formentera.
7 pessoas a bordo de um veleiro.
6 tugas, 1 skipper espanhol.
6 Código's da Vinci num só barco.
1 único não leitor do dito (porque já o tinha lido).
Convenhamos... é ridículo.

Acho que o máximo que se pode dizer sobre o livro é que é engraçado.
Uma trama bem esgalhada, alguns factos curiosos
(uns especulativos, outros não).
Por outras palavras... "lê-se bem".
Eu nem isso acho, confesso. Tem-me provocado um sono atroz.

E têm-me dado que pensar... tamanha histeria por um livro que, não sendo mau, também não é bom. Parece-me que só prova o quão pouco se lê neste país (e no mundo?). O fenómeno só se pode justificar, parece-me a mim, pela escassez de termos de comparação.
Porque de livros bem melhores estão as livrarias cheias.

De operações de marketing deste calibre é que nem tanto.

quarta-feira

Vais-te embora.

É sempre assim. Cada vez que me habituo a ter-te por perto, abres as asas e voas para longe. Pertences ao mundo como eu pertenço ao meu bairro, a tua casa é feita de países, a minha não passa de um rendilhado de ruas.

Gabo-te a coragem. Como tu me gabas a tranquilidade de quem já encontrou na vida um lugar.

- O que procuras?

Um qualquer abrigo onde te sintas em casa, aquele abraço.
E por isso partes. Trepas. Fazes escalada.

Procuras com a alma nas mãos
o que só poderás encontrar quando a puseres de novo dentro do coração.
Onde pertence.

Vem de dentro, o abraço que queres... no sentido inverso daquele que esperas.

terça-feira

Vamos para casa?

Vamos para casa? O sol adormece nos telhados ao domingo
e há um intenso cheiro a linho derramado nas camas.
Podemos virar os sonhos do avesso, dormir dentro da tarde
e deixar que o tempo se ocupe dos gestos mais pequenos.

Vamos para casa. Deixei um livro partido ao meio no chão
do quarto, estão sozinhos na caixa os retratos antigos
do avô, havia as tuas mãos apertadas com força, aquela
música que costumávamos ouvir no inverno. E eu quero rever
as nuvens recortadas nas janelas vermelhas do crepúsculo;



e quero ir outra vez para casa. Como das outras vezes.

Maria do Rosário Pedreira,
em Tenho um Decote Pousado no Vestido
e Não Sei Se Voltas

quarta-feira

Todo o amor

Nunca percebi como podias entender esse tempo de idílio e intimidade
como uma prisão.
Todo o amor é uma prisão, minha querida,
uma prisão inventada por nós contra a escancarada brutalidade da vida.



Inês Pedrosa, em Todo o Amor - Fica Comigo Esta Noite.

sexta-feira

Sei que estavas

Entrámos em Tua casa, com o desprendimento típico de quem descobre um monumento.
As mãos nos bolsos, uma última piada parva já na soleira da porta.
Abrimo-la. E a bebedeira passou.

Invadiste-nos, como uma serenidade imensa que se respira.
Em Tua casa.
Caminhei sozinha. Olhando para cima, onde sempre acho que Te hei-de encontrar.
Embora, com jeito, Te encontre em todo o lado.
E eles foram à sua vida, cada um por si.
Naquele bocadinho, depois de dias de viagem demasiadamente apertados, o espaço desafogado sabia a paz.
Ou eras Tu?

Sim, acho que é esse o Teu sabor...
Falas em silêncio.
E não tens cor nenhuma. És apenas de um branco imaculado em forma de luz.
Todas as cores juntas, não é?
E apesar de incorpóreo, às vezes tocas-me no ombro e dizes para ir devagar. Ou lembras-me que estás ali, quando eu me esqueço e não Te vejo nem quero ver.
Shiu...
Entrámos em Tua casa.
E cada um de nós sentiu que estava carente de Ti e parou para Te ouvir.

Estavas lá. E não o digo por ser aquele o teu lugar, nem por teres vindo abrir a porta com ares de grande anfitrião!
Mas porque o senti.
Sei que estavas.
Ao pé de mim.

quinta-feira

Tu seras pour moi unique

- Bien sûr, dit le rénard.
Tu n'es encore pour moi qu'un petit garçon tout semblable à cent mille petits garçons. Et je n'ai pas besoin de toi. Et tu n'as pas besoin de moi non plus. Je ne suis pour toi qu'un renard semblable à cent mille renards.
Mais, si tu m'apprivoises, nous aurons besoin l'un de l'autre. Tu seras pour moi unique au monde. Je serai pour toi unique au monde...

.

- Adieu, dit le renard. Voici mon secret. Il est très simple: on ne voit bien qu'avec le coeur. L'essentiel est invisible pour les yeux.

- L'essentiel est invisible pour les yeux, répéta le petit prince, afin de se souvenir.

Antoine de Saint-Exupery, Le Petit Prince

Tempestade

A tempestade que se teve em comum
é aquilo que nos separa depois.
E os barcos passam a ser um e um
onde uma vez quiseram quase ser dois.

Sérgio Godinho
(saberia o nome da música se ontem não me tivessem assaltado o carro pela 2ª vez esta semana... cabrones.)

terça-feira

De volta a terra.

Levantei-me a meio da noite, sonâmbula, cambaleante.
Sonhava que navegava. Errada. Errante.
Choquei com a janela, não acordei nela, "mas o veleiro não tinha estore...!" pensei.
Saí pela porta. O corredor largo, "não...". Acordei.
Em casa.
E não havia velas, não via estrelas! Nem ondas a embalar-me o sono.

Sinto-me tonta em terra firme. Custa-me dormir numa cama quadrada, parada... parada.
Sob um tecto branco...? Quero o meu céu. Negro. Cheio de galáxias e de silêncio.
De... paz.
Mastros distantes a baloiçar... música clássica a embalar. Um qualquer chill out.

Im in.
Quero o meu barco. Nem de um bom banho tenho saudades.
Nenhumas?! Não.
Podia viver com a pele a saber a sal a vida inteira!
Os pés descalços na areia. E o mar turqueza em vez de chão.
Podia.



sexta-feira

Dolce fare niente

Em Agosto, parece-me de bom gosto tirar férias!!
Vou.
Mas volto.
Com energias renovadas e palavras mais iluminadas... assim espero!
.

terça-feira

o que importa?

Em Chelas, existe uma cidade por desenhar, uma malha por coser, problemas sociais gravíssimos por resolver...
Não param de me aterrar na secretária, qual aviões sem socorro, burocracias parvas, projectos mediocres e urgentes, prioridades inexistentes.

Porque é que as coisas urgentes são sempre tão pouco importantes?
No trabalho como na vida.

segunda-feira

não me espanta

A manhã nunca pede
mais do que um par de sandálias;
mas a noite da véspera
conserva os seus collants.
Não me espanta o mau gosto
com que a Vida se veste,
se as manhãs e as noites
morrem longe de ti.



David Mourão Ferreira, em Um Amor Feliz.

De quando em vez

a estrada vira as voltas, cruza as rotas,
troca os passos, baralha as pernas e os caminhos que eram nossos.
Coincidentes.
Paralelos.
Cruzados.



Desencontrados.
Por FIM.

terça-feira

In extremis

Além disso amavas Nova Iorque - mesmo, ou sobretudo, quando te zangavas com ela.
Amavas esta cidade como se ama uma só vez uma pessoa - até ao extremo de todos os sentimentos.

.

Talvez nunca tenhas chegado a amar ninguém assim.

Inês Pedrosa, em A Cor dos Anjos
Fica comigo esta noite

segunda-feira

Balada da Rita, Sérgio Godinho

Disseram-me um dia, "Rita, põe-te em guarda.
aviso-te, a vida é dura, põe-te em guarda.
Cerra os dois punhos e andou, põe-te em guarda."
E eu disse adeus à desdita
e lancei mãos à aventura
e ainda aqui está quem falou.

Galguei caminhos-de-ferro (põe-te em guarda)
palmilhei ruas à fome (põe-te em guarda)
dormi em bancos à chuva (põe-te em guarda)
e a solidão, não erro
se ao chamá-la, o seu nome
me vai que nem uma luva.

Andei com homens de faca (põe-te em guarda)
vivi com homens safados (põe-te em guarda)
morei com homens de briga (põe-te em guarda)
uns acabaram de maca
e outros ainda mais deitados
o coveiro que o diga

O coveiro que o diga
quantas vezes se apoiou na enxada
e o coração que o conte
quantas vezes já bateu para nada.

E um dia de tanto andar (põe-te em guarda)
eu vi-me exausta e exangue (põe-te em guarda)
entre um berço e um caixão (põe-te em guarda)
mas quem tratou de me amar
soube estancar o meu sangue
e soube erguer-me do chão

Veio a fama e veio a glória (põe-te em guarda)
passearam-me de ombro em ombro (põe-te em guarda)
encheram-me de flores o quarto (põe-te em guarda)
mas é sempre a mesma história
depois do primeiro assombro
logo o corpo fica farto.

O coveiro que o diga
quantas vezes se apoiou na enxada
e o coração que o conte
quantas vezes já bateu para nada.

sexta-feira

Palmo de terra

Vou, a pouco e pouco, lavrando-te a pele.
Semeio-me
em cada poro teu, largo-me em ti.
Olho-te o céu
Que não anuncia sol nem chuva
e o teu corpo (que é terra)
nada me augura.

Lavro-te a pele
com a delicadeza de um ponto cruz
(é feita de riso a minha enxada).
E a tua pele, já penteada
Vai-se abrindo, rindo,
humedecendo.
Vai-me acolhendo.

Vou germinando em ti
Aconchegada, és meu abraço.
E ainda assim,
reticente, espreito.
Desconfio da terra em que me deito.
Espreguiço-me pelos ramos verdes
Que são meus braços.
A medo. Encolho os dedos.
E guardo os frutos que te quero dar.

Rega-me,
pega-me.

Palmo de terra,
tratas de mim
se eu germinar?

terça-feira

Crónica de amor, inspirada em ti

Não me teste. Não me deteste, quando o teste não corre bem.
Não faça das minhas virtudes cruzes no lado certo da linha, não faça das linhas tortas virtudes mortas, assinaladas.
Não faça isso. Me sinta apenas.
Não pense nada.

Que, no amor, demasiado bom senso estraga tanto quanto nenhum.
Sabia? Pois bem.

Como uma flor. A gente tira cada pétala para investigar, procura pólen, arranca folha e acaba... sem nada na mão. Nem flor. Nem cor. Nem sonho, ilusão.
Só um montinho de flora estragado no coração.

.

Ouve o coração p'ra ser feliz.

- quem diz que a razão tem razão?

Quem diz.

segunda-feira

Acredita +

Ontem, mais do que nunca, senti que era importante ir para a rua.
Levantar alto a bandeira. A alma. O sorriso. E a moral!

É fácil apoiar quem está por cima, quem ganha - para isso estamos cá todos.
Mais difícil, mas também muito mais essencial, é apoiar quem perde, com glória e lutando até ao fim.

Se um qualquer remate português não tivesse sido defendido, seriamos os maiores?
E então... já não somos?
SOMOS. FOMOS. Lutámos com fé, chegámos mais longe que nunca e não perdemos nada. Ganhámos o 2º lugar entre os maiores. E isso, faz de nós GRANDES.

Organizámos aquele que a UEFA considerou ter sido o melhor Euro de sempre e conquistámos dignidade, respeito, simpatia e curiosidade pelos portugueses e por Portugal.
Conquistámos, sobretudo, amor próprio.
E isso, por si só, já é MUITO.

Por isso, com a selecção, nos momentos mais alegres e nos mais tristes
TEMOS ORGULHO.
Vocês mostraram que acreditando vamos longe!

PARABÉNS.

Bolas...

.

... ganharam os gregos.

quarta-feira

Mais longe

Sei que não sou escritor, possivelmente nunca o serei, mas não é por isso que deixo de tentar. Se tentar alcançar a lua, pode até ser que não lá chegue, mas com os pés na terra não fico, digo. E ris-te na minha cara, primeiro um sorriso breve, depois uma gargalhada que te ocupa a totalidade do rosto. Chamas-me:

- pateta

Cartas a Mónica

terça-feira

Como um sopro

Trepa-me a alma
alcança-me.
Dança no embalo dos dias que são meus
Quero dar-te os sonhos
partilhar dias
entregar-te as noites que me são vazias
enrolar os dedos
nos teus.

Que as mãos
são
a maior entrega.

Escorrega-me nos dias vãos
que passam, a voar,
sem que os agarre.
Agarra-me.



Que eu ando solta pelo ar.

sexta-feira

Não adianta...

hoje não me apetece trabalhar.

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